Um pouco de Educação
"A vida é uma ópera bufa com intervalos de música séria" Ressurreição - M.Assis

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Do ócio
Retorno ao meu blog, depois de 2 anos sem postar por pura falta de tempo, falando brevemente sobre o ócio. Na verdade sobre o tempo ou a necessidade dele para a criação. Vez por outra esse tema me toma, principalmente depois que minha filha mais velha ingressou na adolescência e eu percebi mais nitidamente como não nos aproveitamos do ócio quando mais temos chance de fazê-lo.
A angústia foi arrebatadora quando, ao tentar obstinadamente tentar finalizar um livro (como leitora), fui arremessada ao poço dos desesperados por 17 (é, eu contei) interrupções por parte da minha família querida, quando desisti temporariamente desta empreitada.
O ócio é necessário. Não basta abdicar das tarefas se elas não se desaninharem dos pensamentos. Se faz necessário um abandono do mundo. Um nada que te toma para dele emergir você, em estado puro, ou o mais próximo que se pode chegar. Os ruídos do mundo interferem na criação. Em um primeiro momento esses ruídos são matéria prima para a criação, mas não no fazer. O fazer é particular.
Então explico-me pela minha ausência. Tenho sido o outro em mim.
Busco a partir deste post retornar a um costume que me faz muito bem.
Leitor poético, teor poético. Entre-caminhos cruzados.

Penetra surdamente no reino das palavras
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Drummond
“Não conheço prazer como o dos livros, e pouco leio. Os livros são apresentações aos sonhos, e não precisa de apresentações quem, com a facilidade da vida, entre em conversa com eles. Nunca pude ler um livro com entrega a ele; sempre, a cada passo, o comentário da inteligência ou da imaginação me estorvou a seqüência da própria narrativa. No fim de minutos, quem escrevia era eu, e o que estava escrito não estava em parte alguma"(Fernando Pessoa – Livro de Desassossego)
Cabe ressaltar então que o caráter inter-disciplinar do estudo poético busca, pelo diá-logo com a obra artística, essa plenitude e não se prendendo aos limites de uma tradição segmentária-científica jamais encontrará uma verdade metodológica. Mais do que isso, buscará o sentido primeiro, digerindo cada palavra para que esta retorne em forma de amplitude de sentido em um movimento constante pela linguagem. Auscultar a obra de arte é mantê-la viva. Cuidar em permanecer no caminho liminar é cuidar para estar aberto à escuta da linguagem, morada do ser. Há os que questionam aqueles que buscam no poético a via tortuosa para o estudo literário-artístico. Há os que, com os olhos cerrados, negam e ridicularizam esse caminhar que não busca encontrar o destino, que não busca ser classificável ou utilizável. Que encontra no nada mais sentido do que qualquer teoria descritiva. Contudo os que julgam e rotulam – sendo igualmente passíveis de rotulação – preferem, não por ignorância, mas antes por opção, não reconhecer a validade e a importância de um estudo tão estrangeiro aos conceitos pelos quais baseou toda sua experienciação acadêmica.
Qual é a função da obra artística literária – já que não basta escrever para produzir literatura relevante – neste percurso para o entendimento do ser? Primeiramente iremos destituir da obra o caráter de função no sentido utilitário do termo. Uma das primícias básicas para um debruçar-se poético é a recolocação das palavras em seus devidos lugares. O ataque ao metafísico não é um ataque bélico, mas uma necessidade urgente de desvencilharmo-nos das amarras cartesianas; de um sistema dicotômico no qual fomos criados-moldados-treinados. Alberto Pucheu em seu texto Literatura, pra que serve? aponta algumas possibilidade de apreensão:
“A literatura é um caminho vital intensivo e progressivo de vida. Um dos caminhos, um caminho privilegiado. Por esse caminho, chega-se a vida, não como uma última paragem, estanque, a ser atingida, mas como o que já está, desde sempre, presente, em movimento, mas não conseguimos, habitualmente, vivenciar.
...
A literatura se confronta com nossa individualidade, enfrenta-a, ataca-a. Por isso, ainda que em nome da vida, ou melhor, sobretudo por estar em nome da vida, investindo-nos, ela é tão temerosa.
...
Esses são os dois vetores intensivos de vida para os quais serve a literatura: o riso do sempre risível das propriedades individuais e a alegria de um começo vertiginoso.”
Encarar a obra transgredindo a norma é prioritariamente um desafio. Para Manoel de Barros,
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.
de "O Guardador de Águas"
...
A encruzilhada: a indiscernibilidade experimentada. O que conta portanto, não são os termos – literatura-corpo-vida: o que conta é apenas a encruzilhada, inescapável, a indiscernibilidade experimentada, inadiável.”
Aliado a esta idéia acrescentamos o sentido de sophia com um saber que não é qualquer saber, mas sobretudo aquele do aedo, do poeta original. Posto isso, é correto ligar o estudo de poética à filosofia fundando assim um diálogo construtivo inter-disciplinar e não nos moldes histórico-filosóficos tão difundidos atualmente. A busca por um saber que vigora na obra, mas não se restringe a ela é, naturalmente, comparável a esta filosofia autêntica, buscada dos pensadores originários
Caminhar no entre sem se deixar levar pelos caminhos dos “ismos” do mercado, não constitui tarefa fácil para o leitor poético. Fernando Pessoa sentencia: “A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir”. Sair da inércia, do pré-estabelecido é o primeiro movimento capaz de fazer-nos lançar mão do já dado para o caminho do desassossego inerente a quem saboreia a vida e maravilha-se com ela. Estar na encruzilhada é para este leitor, diferentemente do senso comum, o lugar de uma buscada inquietação. É onde leitor-poético e obra-poética encontram-se dialogam. Ouvindo o silêncio. Vigorando na linguagem.
Sobre gente e pessoasAquele sangue é nosso e a mancha que ele produz não sairá de nossa terra, não é lavável, não é renovável, não é desprezível.
Aquela gente sou eu. Aquele outro me tem e não sabe que em seu corpo vigora parte de mim, que o que verte saiu de minhas veias, que o que foi maculado marcou a ferro onde jamais cicatriza.
Somos um e lutamos por ser cada um. Quando não existir mais ninguém, nem aí serei só eu. Já não serei. Já não importará.
A favela está em guerra, a cidade sitiada grita e se (mal)organiza. Meteram o dedo em seu pudim. A guerra chegou aos cercadinhos classe média, mesmo pagando aquele condomínio que custa os olhos da cara.
Aos 19 somos meninos se nosso pai pode nos dar carro e dinheiro. Matamos índio, batemos em qualquer um que não tenha alma como nós. Crianças que precisam de uma lição. Ai, ai, ai, assim não pode!
Aos 16 somos adultos se nossa mãe tem que nos deixar tomando conta dos irmãos menores enquanto trabalha para ganhar um salário mínimo e talvez até ganhar umas porradas de algum playboy antes de voltar para casa.
Somos comoção nacional se altos, belos e fortes.Somos notinha de jornal se fracos, pardos e pobres.
Estamos doentes... Doentes da doença do eu.
“Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”
Trecho de “Mineirinho” de Clarice Lispector
foto: Jornal O Globo on line
Sem tempo para postar, deixo-lhes uma mostra do trabalho do grupo Arranjos para Assobio.
Bom apetite.
Ontem ouvi uma pessoa que perguntava o porquê de nós, estudiosos de literatura e brasileiros, passarmos nosso tempo a estudar e perguntar pelas questões do Ser enquanto nosso país passa por crises sociais tão graves.Machado de Assis
O SERMÃO DO DIABO
1893, setembro
Nem sempre respondo por papéis velhos: mas aqui está um que parece autêntico; e, se o não é, vale pelo texto, que é substancial. É um pedaço do evangelho do Diabo, justamente um sermão da montanha, à maneira de São Mateus. Não se apavorem as almas católicas. Já Santo Agostinho dizia que "a igreja do Diabo imita a igreja de Deus". Daí a semelhança entre os dois evangelhos. Lá vai o do Diabo:
"1º E vendo o Diabo a grande multidão de povo, subiu a um monte, por nome Corcovado, e, depois de se ter sentado, vieram a ele os seus discípulos.
"2º E ele, abrindo a boca, ensinou dizendo as palavras seguintes.
"3º Bem-aventurados aqueles que embaçam, porque eles não serão embaçados.
"4º Bem-aventurados os afoitos, porque eles possuirão a terra.
"5º Bem-aventurados os limpos das algibeiras, porque eles andarão mais leves.
"6º Bem-aventurados os que nascem finos, porque eles morrerão grossos.
"7º Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e disserem todo o mal, por meu respeito.
"8º Folgai e exultai, porque o vosso galardão é copioso na terra.
"9º Vós sois o sal do money market. E se o sal perder a força, com que outra coisa se há de salgar?
"10. Vós sois a luz do mundo. Não se põe uma vela acesa debaixo de um chapéu, pois assim se perdem o chapéu e a vela.
"11. Não julgueis que vim destruir as obras imperfeitas, mas refazer as desfeitas.
"12. Não acrediteis em sociedades arrebentadas. Em verdade vos digo que todas se consertam, e se não for com remendo da mesma cor, será com remendo de outra cor.
"13. Ouvistes que foi dito aos homens: Amai-vos uns aos outros. Pois eu digo-vos: Comei-vos uns aos outros; melhor é comer que ser comido; o lombo alheio é muito mais nutritivo que o próprio.
"14. Também foi dito aos homens: Não matareis a vosso irmão, nem a vosso inimigo, para que não sejais castigados. Eu digo-vos que não é preciso matar a vosso irmão para ganhardes o reino da terra; basta arrancar-lhe a última camisa.
"15. Assim, se estiveres fazendo as tuas contas, e te lembrar que teu irmão anda meio desconfiado de ti, interrompe as contas, sai de casa, vai ao encontro de teu irmão na rua, restitui-lhe a confiança, e tira-lhe o que ele ainda levar consigo.
"16. Igualmente ouvistes que foi dito aos homens: Não jurareis falso, mas cumpri ao Senhor os teus juramentos.
"17. Eu, porém, vos digo que não jureis nunca a verdade, porque a verdade nua e crua, além de indecente, é dura de roer; mas jurai sempre e a propósito de tudo, porque os homens foram feitos para crer antes nos que juram falso, do que nos que não juram nada. Se disseres que o sol acabou, todos acenderão velas.
"18. Não façais as vossas obras diante de pessoas que possam ir contá-lo à polícia.
"19. Quando, pois, quiserdes tapar um buraco, entendei-vos com algum sujeito hábil, que faça treze de cinco e cinco.
"20. Não queirais guardar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e donde os ladrões os tiram e levam.
"21. Mas remetei os vossos tesouros para algum banco de Londres, onde a ferrugem, nem a traça os consomem, nem os ladrões os roubam, e onde ireis vê-los no dia do juízo.
"22. Não vos fieis uns nos outros. Em verdade vos digo, que cada um de vós é capaz de comer o seu vizinho, e boa cara não quer dizer bom negócio.
"23. Vendei gato por lebre, e concessões ordinárias por excelentes, a fim de que a terra se não despovoe das lebres, nem as más concessões pereçam nas vossas mãos.
"24. Não queirais julgar para que não sejais julgados; não examineis os papéis do próximo para que ele não examine os vossos, e não resulte irem os dous para a cadeia, quando é melhor não ir nenhum.
"25. Não tenhais medo às assembléias de acionistas, e afagai-as de preferência às simples comissões, porque as comissões amam a vangloria e as assembléias as boas palavras.
"26. As porcentagens são as primeiras flores do capital; cortai-as logo, para que as outras flores brotem mais viçosas e lindas.
"27. Não deis conta das contas passadas, porque passadas são as contas contadas, e perpétuas as contas que se não contam.
"28. Deixai falar os acionistas prognósticos; uma vez aliviados, assinam de boa vontade.
"29. Podeis excepcionalmente amar a um homem que vos arranjou um bom negócio; mas não até o ponto de o não deixar com as cartas na mão, se jogardes juntos.
"30. Todo aquele que ouve estas minhas palavras, e as observa, será comparado ao homem sábio, que edificou sobre a rocha e resistiu aos ventos; ao contrário do homem sem consideração, que edificou sobre a areia, e fica a ver navios..."
Aqui acaba o manuscrito que me foi trazido pelo próprio Diabo, ou alguém por ele; mas eu creio que era o próprio. Alto, magro, barbícula ao queixo, ar de Mefistófeles. Fiz-lhe uma cruz com os dedos e, ele sumiu-se. Apesar de tudo, não respondo pelo papel, nem pelas doutrinas, nem pelos erros de cópia.
in A Semana - Gazeta de Notícias - 04/09/1892.
Fonte: A Semana - Machado de Assis - W. M. Jackson Inc. - 1946